março 30, 2008

António Melenas - " Em Sonetos e Poesias"


Mulheres da minha Vida
(Balanço final)

Mulheres da minha vida, não queirais
Que eu diga, nesta hora, por favor,
Qual foi a que de vós eu gostei mais,
À qual me consagrei com mais ardor

Sendo a mulher flor tão delicada,
Como escolher entre uma e outra flor?
Se colho a rosa por ser tão perfumada
desmereço ao cravo e ao nardo o seu valor?

E a violeta, o jasmim e a açucena
Ignorá-las quem não teria pena?...
Por isso todas guardo em meu canteiro

Não me pergunteis, pois, qual mais amei
Nenhuma de vós jamais eu olvidei
E amo ainda todas, por inteiro

Outubro de 2006



********************


OS TEUS OLHOS

Gosto de ti
Não por seres linda ou por seres feia.
Gosto de ti
Pela cor indefinida dos teus olhos
Na qual há uma mistura de todas as cores.
Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos
Mas gosto de ti,
Por seres a dona de tais olhos.
Gosto de ti
Pela cor garça dos teus olhos ...
Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos ...
Duma luz vaga, indefinida, incerta,
Como incerta e indefinida e vaga
É a minha vida
E a vida de toda a gente
Na hora que passa.
E é por isso,
Por essa identificação da minha vida
Com a cor incerta dos teus olhos,
Que eu gosto de ti.


***********



SONHO ANTIGO

Foi por ti que esperei, fada encantada
Que em sonhos de criança idealizei;
Foi a ti que em meus versos arrulhei
Requebros tristes d’alma apaixonada

Foi para ti só que conservei
Esta fúria de amar em mim guardada;
A ti pertence, pois, idolatrada
Realização dos sonhos que sonhei

Deixa-me olhar teus olhos de encantar,
Aconchegar-te ao peito e escutar
A música dos teus lábios divinais,

E deixa que em mil beijos se traduza
Esta paixão ardente, linda musa,
Que em meu peito não pode caber mais!


**********


BEM –VINDA

Por escusos caminhos, já perdida,
A minha pobre mente vagueava
E doidamente, em ânsias, procurava
Uma razão qualquer de amar a vida

Qual náufrago na vaga embravecida,
Ao sabor da corrente esbracejava
E quando já de todo soçobrava,
Chegaste e foste a praia apetecida

E em prazer minha dor foi transformada
Só porque te encontrei, fada encantada,
Tal como te sonhei, esbelta e linda !

E agora a minha vida é uma canção
Em que eu digo, de alma e coração:
Bem-vinda sejas tu, mulher, Benvinda

(Poema de 1952, para a Benvinda)

*********


AUTO-PROCURA

O meu Eu, deixei-o abandonado
P’los caminhos da Dor e da Ilusão.
Sou um cego, sem guia nem bordão...
Um farrapo aos ventos atirado.

Todos os sonhos bons que hei sonhado
Queimaram-se na chama da Paixão...
E onde havia, outrora, um coração
Há um abismo sem fundo de pecado.

Entre o que fui e o que sou, a cada instante,
Há em mim uma luta fatigante
Que a minha alma gasta não suporta...

Na ânsia de encontrar-ME (vão intento!),
Meus dias vou gastando, num tormento,
A procurar por MIM, de porta em porta!...


********


POEMA DE AMOR ...

O Poema de amor, Amor,
que em breve te farei,
não há-de ser senão
o acto de te amar.

Não vou precisar lápis nem papel
pois é sobre o teu corpo, em tua pele,
que ao vivo meu poema vou criar.
Para quê de palavras o gaguejo
quando o corpo nos arde
de desejo,
e mais do que dizer
o quer gritar ?

Desse poema, as palavras
serão beijos.
E as frases os abraços ...
E a escrita no teu corpo
serão traços,
dedos, dentes, bocas, braços
que em ti imprimirei.

Sujeitos da oração
seremos dois !
E objectos seremos igualmente.

E no conjugar febril
da mesma acção,
o verbo não terá senão presente.
Exclamações (!) serão gemidos,
Suspiros e ais as reticências...

E não haverá paz nem complacências
até à morte plena dos sentidos.

Pontos, só haverá ponto final,
a fim de que o poema,
Amada minha,
comece nova estrofe,
em nova linha.
Com beijos e abraços...

Tal e qual


********


NO CORPO QUE ME ABRISTE ...

No corpo que me abriste, com amor,
Com amor lancei minha semente.
E a seiva germinou e se fez flor
E o verbo tomou forma e se fez gente

E quando sobre nós, lançando a dor
Nos separa o fascismo prepotente,
Tu não estavas só, pois em amor
Crescia a nossa filha no teu ventre

Recordo a tua imagem sorridente
Passando junto aos muros da prisão
(Por trás a velha Sé, o Tejo em frente)

E eu, preso à doçura da visão,
Bebendo no teu riso transparente
O orgulho que te enchia o coração


*********

AMAR-TE É COMO...


Amar-te é como ir pela manhã
A uma roseira em flor e recolher
A mais pura, a mais fresca, a mais louçã
Das perfumadas rosas que tiver;

Ou como, a rir, morder uma romã
Ou a sonhar colher um malmequer ...
É como caminhar por uma estrada
novinha ... ainda por inaugurar

E desenhar os pés descalços na geada,
De leve, para não a macular.
E é prosseguir assim a caminhada
sem destino ... nem pressa de chegar ...

É, numa vinha, à hora do sol-pôr,
Espremer um cacho de uvas sazonado
E embriagar-me depois com o licor

Delicioso do vinho derramado
A chiar no barro cheio de frescor
Da taça esguia do teu corpo amado


********


AMO-TE TANTO...

Amo-te tanto, tanto, que se um dia
Viesses a faltar-me, meu Amor,
Desamparada e triste, qual flor,
A minha vida breve emurchecia!

Sinto dentro de mim que não podia
Dispensar dos teus braços o calor,
Do beijo dos teus lábios o sabor
Nem dos teus olhos lindos a magia

Tu és toda a razão do meu viver,
Da minha vida a estrela matutina!
E tanto, que nem sei a qual mais querer,

Tão grande é a paixão que domina:
Se ao teu esbelto corpo de mulher
Se ao teu cândido rosto de menina
1950

9 comentários:

Cris Moreno disse...

Caramba, adorei esta rebeldia... rsrs
Que lindo. Tudo combinando. As cores, a música, as palavras...mama mia...

Beijos.

Adoro quando você dá uma atualizada assim no blog...

Bom domingo.

Anônimo disse...

este senhor era um verdadeiro poeta e um homem com letra muito grande

beijinhos

jorge

Menina do mar disse...

Adoro tulipas...rsrsr

aminhapele disse...

Gosta de Nelson Cavaquinho?
Então dê uma espreitadela no PEDECABRA.
Um abraço.

Mari disse...

Tulipas maravilhosas, lindas poesias recheadas de sensibilidade, de você Beija-flor...

Bjs amiga!

aminhapele disse...

Também calculei que fosse gostar.
Um abraço.

O Árabe disse...

Belas escolhas... floridos poemas!

Edson Marques disse...

Belíssimos poemas!

Mas o primeiro (soneto) me deixou em êxtase!


/// Abraços, flores, estrelas e Democracia!

Emília disse...

O António ficará sempre entre nós.Quem é poeta não morre nunca.
Belissima homenagem, a sua, aqui.Só você soube estar à altura dele. Eu afastei-me e saí perdendo.
Saudades dele.
Bjo para você.

O Que Sou:

Um misto de:
Fracasso e conquista,
Coragem e medo,
Brutalidade e fragilidade,
Vida e morte, mulher e bicho,
Sonhos e pesadelos.
Sou um fio de esperança.

"Um misto de fracasso e de conquista.
Um medo transmutado de coragem.
Tão frágil como a rosa que se avista.
Brutal no cinzentismo da paisagem.
Assim mulher e bicho me retrato.
Mesclando o pesadelo com o sonho.
E vivo de incertezas... e me mato.
Num fio de esperança que reponho."
(Jorge)

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